Maioria da população diz que Brasil continua despreparado para nova pandemia, mostra Datafolha - Jornal Folha do Trabalho

Page Nav

HIDE

Pages



Últimas notícias

latest

Maioria da população diz que Brasil continua despreparado para nova pandemia, mostra Datafolha

  A pesquisa Datafolha aponta que o sentimento predominante entre os brasileiros é de preocupação com novas crises sanitárias Foto: Sergio L...

 A pesquisa Datafolha aponta que o sentimento predominante entre os brasileiros é de preocupação com novas crises sanitárias


Foto: Sergio Lima/ AFP

CLÁUDIA COLLUCCI
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

A maioria dos brasileiros avalia que o país não aprendeu o suficiente com a pandemia de Covid-19 e segue despreparado para enfrentar uma nova crise sanitária, mostra pesquisa Datafolha encomendada pelo Instituto Todos pela Saúde, entidade sem fins lucrativos que atua na área da epidemiologia.

O levantamento revela que 53% consideram que o Brasil não está preparado para uma futura epidemia ou pandemia, enquanto outros 28% avaliam que o país está pouco preparado. Apenas 18% dizem que há organização para lidar com uma nova emergência, e 1% não sabe.

A pesquisa, feita com 2.002 pessoas com mais de 16 anos em todo o país, nos dias 10 e 11 de novembro de 2025, revela um cenário de desconfiança generalizada e sensação persistente de vulnerabilidade. A margem de erro é de dois pontos percentuais, com nível de confiança de 95%.

Para especialistas, os dados indicam que a experiência recente da Covid, que resultou em mais de 700 mil mortes no Brasil, ainda não se traduziu em percepção de avanço institucional ou capacidade de resposta.

Segundo o médico Gerson Penna, diretor-presidente do Todos pela Saúde, o problema é mais profundo e antigo: o Brasil segue sem instrumentos institucionais e legais adequados para lidar com futuras pandemias. “Essa história não é de hoje. O Brasil está atrasado”, afirma.
Ele diz que o mundo avançou nas últimas décadas na criação de centros especializados em saúde pública, enquanto o país ficou para trás. “Até 2000, existiam 54 instituições desse tipo. Entre 2000 e 2020, foram criadas 39. E, de 2020 para cá, mais 29. O mundo está se preparando, e a gente não.”

Deisy Ventura, professora titular da Faculdade de Saúde Pública da USP, diz que o tema deveria estar no centro da agenda política desde o início do atual mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). “Isso deveria ter sido prioridade desde o primeiro ano”, afirma.

Para ela, o país falhou em fazer uma avaliação consistente da resposta à pandemia de Covid, deixando de aprender com erros e acertos. “Não houve um balanço sério sobre as cadeias de decisão, os impactos da crise ou a governança da pandemia. Nem sequer construímos uma base jurídica a partir da experiência.”
A pesquisa Datafolha aponta que o sentimento predominante entre os brasileiros é de preocupação com novas crises sanitárias. Quase metade dos entrevistados (49%) declara alto nível de apreensão diante do risco de novas epidemias ou pandemias, enquanto 36% manifestam nível médio.
A insegurança também aparece quando os entrevistados comparam a experiência recente com o futuro.
Para 46%, a sensação é de que estariam menos seguros em uma nova pandemia do que estiveram durante a Covid.
De acordo com o médico José Gomes Temporão, ex-ministro da Saúde e pesquisador da Fiocruz, a preocupação dos brasileiros dialoga com as do meio científico. “Há uma certeza de que haverá uma nova pandemia. Só não sabemos quando.”
Segundo Ventura, fatores como conflitos armados, reemergência de doenças e avanço do negacionismo científico são elementos que ampliam os riscos. “Os intervalos entre pandemias estão ficando mais curtos. Não há mudança no modo de vida global que indique o contrário”, afirma.
Na opinião de Penna, o aumento da percepção de risco não é necessariamente negativo. “O mundo hoje é interligado. Um agente infeccioso pode se espalhar globalmente em poucos dias. As pessoas estão tomando consciência. Isso pode ajudar a pressionar por mudanças estruturais.”
Em meio à insegurança, há um ponto de consenso –9 em cada 10 brasileiros afirmam que se sentiriam mais seguros caso o país tivesse um centro de controle de doenças, que seria uma estrutura permanente, técnica e com autonomia operacional, dedicada à resposta a emergências sanitárias.
Penna, que já foi secretário de vigilância em saúde do Ministério da Saúde, participou da elaboração de uma proposta nesse sentido. “A gente foi buscar inspiração em vários países da Europa, África, Austrália para construir algo adaptado ao SUS. É uma instituição que assessora o governo com base científica nas fases de preparação, resposta e resiliência”, explica.
O projeto prevê vinculação ao Ministério da Saúde, mas com governança compartilhada. “Seria uma instituição pública, com conselho presidido pelo ministro da Saúde e participação de estados, municípios e entidades técnicas”, afirma.
Para Penna, contudo, a criação do centro só será efetiva se vier acompanhada de uma mudança mais ampla: a aprovação de uma lei nacional de enfrentamento a emergências sanitárias. “A lei é, sem dúvida, a medida mais urgente. Hoje o Brasil não tem instrumento legal permanente para gerir uma pandemia.”
Ele lembra que, durante a Covid, o país precisou aprovar uma legislação emergencial, que perdeu validade com o fim da crise. “A gente fica sem base jurídica assim que a emergência acaba. Isso não pode acontecer.”
Segundo ele, um projeto já está pronto na Casa Civil e deve ser encaminhado ao Congresso. A proposta estabelece uma política de Estado, suprapartidária, que permita atuação coordenada em futuras crises.
Para Ventura, a saída passa por uma política estruturada, baseada em evidências científicas, com definição clara de responsabilidades e mecanismos de proteção social. E que estabeleça regras sobre governança, vacinação, comunicação e responsabilização. “Sem isso, vamos repetir os mesmos erros, independentemente de quem esteja no governo.”
De acordo com a pesquisa, em meio à multiplicidade de fontes de informação, médicos e profissionais de saúde são os mais confiáveis para a população: 58% dizem recorrer a esses especialistas durante emergências sanitárias. Na sequência aparecem a OMS (Organização Mundial da Saúde), com 41%, e o Ministério da Saúde e outras instâncias governamentais (40%).
Políticos, por outro lado, são citados por apenas 3% dos entrevistados como fontes confiáveis de informação. Familiares e amigos aparecem com 20%, enquanto líderes religiosos somam 9%.
A busca por informação é praticamente universal durante uma pandemia: 99% afirmam utilizar algum meio para se informar, recorrendo, em média, a quatro canais diferentes. Profissionais ou unidades de saúde (88%), televisão (78%), redes sociais (72%) e sites de notícias (71%) são os meios mais citados.
Apesar disso, o ambiente informacional segue marcado por incertezas. Seis em cada dez brasileiros (61%) relatam ter tido dificuldade para saber em quem confiar durante uma epidemia ou pandemia, evidenciando o impacto da desinformação. “A propaganda contra a saúde pública continua ativa e sem punição. Isso deixa um péssimo prognóstico para as próximas crises”, afirma Ventura.

Nenhum comentário